Um réquiem para Bionda – para todas as Biondas

Descanse, Bionda! Nós continuaremos lutando por outras como você e por todos os animais 



Por Paulo Furstenau*


Sim, é uma shih tzu. Sim, é bonitinha. Não, eu não comprei. E atenção ao título desta postagem: ela está morta. “Mas que mórbido tirar foto de cachorro morto!” Não, não é morbidez. É uma mensagem para todas as pessoas que a mataram, pois a maioria dessas pessoas ainda desconhece sua participação nessa morte e elas precisam ser avisadas. 

Bionda passou seus 10 anos de vida sendo explorada como matriz em um canil. O que é uma matriz? É uma cadela (ou gata) de raça cuja única “função” na vida é reproduzir e gerar filhotes para serem vendidos e dar dinheiro para os “criadores”, como se autodenominam seus algozes. Elas são forçadas a copular desde o primeiro cio, aos sete meses, e daí em todos os cios para engravidar e parir até literalmente não aguentarem mais. E o que acontece quando elas não têm mais condições de reproduzir? São sacrificadas.

Em condições normais, um shih tzu vive entre 15 e 20 anos. A média de vida de uma matriz é sete anos. Aos 10 anos de idade e exploração, a brava sobrevivente Bionda estava com brucelose e cega, devido às péssimas condições em que vivia. Porque “criadores” não estão nem aí para a qualidade de vida dos animais que exploram. Os bichos vivem todos amontoados, em gaiolas, e são limpos apenas quando vão ser expostos para venda. Bionda e dois de seus inúmeros filhos, que têm a mesma doença, seriam sacrificados por não prestarem mais para reproduzir nem para serem vendidos, mas foram resgatados por protetores de animais, que conseguiram um espaço para eles na Natureza em Forma, para serem colocados para adoção. 

“Ah, mas eu comprei meu cachorro de um amigo que tem um casal, são todos muito bem cuidados, vivem livres em um sítio.” Pense bem. A partir do momento que esses filhotes são vendidos, já fica claro o tipo de caráter do seu amigo, um comerciante de vidas. E com tantos cães e gatos largados aí pelas ruas, qual o sentido de comprar um animal, quando você pode salvar um que tanto precisa? “Meu cachorro está procurando uma namorada, ele precisa cruzar.” Não, não precisa. E ele não quer namorar nem trepar, parem de humanizar os animais!! O que um cão e gato precisam é de castração antes do primeiro ano de idade, o que, entre vários benefícios, diminuirá as chances de muitas doenças. “Ah, mas eu quero ter um filhote do meu cachorro/gato...” POR QUÊ??? “...e nenhum dos outros da ninhada será vendido, serão todos doados e já há pretendentes muito bons para cada um.” Reformulando o que falei acima: qual o sentido de deliberadamente gerar mais meia dúzia de vidas para serem adotadas por pessoas excelentes quando essas pessoas poderiam salvar meia dúzia de vidas que já existem e estão precisando muito de um lar?

Bionda depois do banho no Pet Centro 
da Associação Natureza em Forma



Por isso eu disse que Bionda, assim como aquele personagem do livro Assassinato no Expresso do Oriente, foi morta por várias pessoas: não foram apenas os “criadores” gananciosos e sem escrúpulos que a mataram, mas também cada uma das pessoas que, por futilidade (querem ter animais de raça apenas por status, moda ou pedigree) ou simplesmente falta de informação, compram vidas. Eu também matei Bionda, pois já tive três cachorros comprados, por não conhecer a realidade por trás desse comércio. “Ah, mas então devemos comprar para ajudar esses animais, tirá-los dessa vida.” Não. A única forma de ajudar esses bichos é parando mesmo de comprá-los. Se não houver mais demanda, os exploradores serão obrigados a encontrar uma renda (ou complemento de renda) honesta. Não haverá matrizes exploradas e mortas precocemente nem filhotes maltratados - a propósito, acho que muita gente conhece alguém que comprou um filhote numa pet shop ou feira de animais e o bichinho morreu dias depois. Você nunca se perguntou o porquê? Pois é, entendeu agora?

Bionda morreu na minha casa. Pediram que eu a trouxesse por dois dias, para que ela tivesse a oportunidade de sentir o que é um lar – por mais que ela fosse bem cuidada na ONG, lá não é um lar de verdade. A princípio, relutei, pois eu estava focado em adiantar o máximo possível o tanto de trabalho que tenho a fazer e recusei até mesmo meu fim de semana mensal na praia com meu consorte. Mas o argumento de mostrar a ela pela primeira vez como é ter uma família me convenceu. Ademais, ela era uma candidata à vaga de irmã do Areias, recém-aberta em minha casa e vida, e seria uma oportunidade de nos conhecermos melhor. Quem sabe seria ela?

Quando fui buscá-la no domingo, me disseram que ela estava mal. Trouxe-a para casa junto com uma trouxinha de remédios, colírio, caminha etc. Ela não estava nem andando, gemia e não queria comer. Ontem, veio um voluntário da ONG para aplicar a injeção com o remédio para dor. Quando ele me mandou mensagem dizendo que estava a caminho, eu estava sentado na cama trabalhando e passando o pé na Bionda, para acalmá-la – desde a véspera, eu havia notado que ela parava de gemer sempre que eu fazia carinho nela. O voluntário chegou, fui à cozinha arrumar algumas coisas que ele tinha trazido; quando voltei ao quarto, ele estava ao telefone relatando à veterinária que Bionda estava sem batimentos, cianótica etc. Tomei um susto. Ela realmente havia partido. 

A princípio, me senti mal: será que eu não havia cuidado direito dela? Mas daí me veio à cabeça a série de acontecimentos – as férias que tirei do meu trabalho oficial para adiantar meu trabalho voluntário, eu não conseguir ter feito tudo o que precisava fazer, ter deixado de viajar por isso, o pedido para eu ficar com ela por dois dias, minha dúvida se eu a pegava ou não e acabar decidindo que sim, ela ter piorado justamente na véspera de eu buscá-la – que convergiram para que exatamente em sua última noite de vida ela pudesse ter uma amostra do que é um lar. E mais uma vez, após o Areias, agradeci ao Universo e suas lindas conspirações pela honra de ter sido escolhido para fazer a diferença na vida de um animal vítima das atrocidades dos seres humanos. Em ambos os casos - Areias e Bionda -, ter sido eu o primeiro e único humano que lhes afagou e disse boa noite antes que nós dois adormecêssemos lado a lado, como os cães – domesticados (e ludibriados?) há milhares de anos pelo ser humano – gostam que seja. No caso da Bionda, em uma única – e sua derradeira – noite.

Zulu, Belinha e Bionda fazendo pose no Centro de Adoção da Associação Natureza em Forma. 
Os dois órfãos, que têm cerca de três anos, ainda aguardam uma família amorosa e responsável 


E esse contexto da partida de Bionda me fez lembrar do Abel. Ele não era um cachorro, era um cavalo. Que conheci quando passei um fim de semana com meu namorado e nossa amiga Nina Rosa, ativista da causa animal, em um santuário. Abel havia sido deixado ali após não prestar mais para ser explorado como cavalo de carga. No santuário, ele era bem cuidado e alimentado, tinha uma área grande ao ar livre para andar e uma baia confortável para dormir. Mas quando chegamos lá, meu namorado fez massagens nele, Nina conversou com ele, eu também fiz carinho. Em um dos momentos em que ele estava deitado no chão, após toda essa atenção, vi lágrimas saindo de seus olhos. Perguntei se aquilo era algum movimento natural do corpo ou realmente era uma expressão de sentimento, e meu namorado disse que não era possível afirmar. À noite, fomos à baia para vê-lo, e ele dormia. No dia seguinte, nos disseram que ele havia partido durante aquela noite. 

Hoje, quase dois anos depois, tive a confirmação de que o choro de Abel não foi um movimento involuntário ou aleatório do corpo. Ele passou sua existência sendo explorado, foi resgatado e sua vida melhorou consideravelmente, mas ele ainda precisava de algo mais. Quando recebeu umas visitas que lhe fizeram carinho e conversaram com ele, ele se foi. Bionda teve uma vida de exploração, foi resgatada e passou a viver em condições muito melhores. Quando teve uma noite dentro de uma casa de verdade, partiu. Tanto Abel quanto Bionda estavam exaustos de tanto sofrimento, mas se recusavam a partir enquanto não tivessem ao menos uma vez na vida o que todo animal merece receber dos humanos, que supostamente, como seres racionais e dotados de mais meios, deveriam ajudá-los em sua trajetória neste planeta, oferecendo cuidados e amor (no mínimo, respeito), e nunca exploração e maus-tratos como acontece. 

Por isso, peço a todos que mudem suas atitudes em relação aos animais: parem de comê-los; parem de usá-los como roupa; parem de ir vê-los aprisionados em zoológicos, circos e aquários; parem de financiar qualquer atividade chamada de “atração turística” que use animais, porque todas elas (sim, todas) envolvem aprisionamento, exploração e maus-tratos; informem-se sobre as inúmeras formas de exploração a que eles são submetidos e deixem de contribuir para isso. Bom, se vocês pararem de comprar animais e, em vez disso, adotarem aqueles que estão nas ruas, ONGs e abrigos, já é um ótimo começo. 


Leia (ou releia) aqui o relato de vida da Bionda. E confira aqui o endereço da Associação Natureza em Forma para vir conhecer Zulu e Belinha, se apaixonar e levá-los para casa, para lhes dar a vida que merecem!**


*Paulo Furstenau é jornalista voluntário da Associação Natureza em Forma


** [ATUALIZAÇÃO]

Cinco dias após Bionda partir, a Thais, que já havia conhecido essa família especial, voltou na ONG para adotá-la. Bionda não conseguiu esperar, mas Belinha e Zulu agora já têm o lar amoroso que tanto merecem!


Vida nova para Belinha e Zulu!!

Um comentário:

  1. Ótimo texto, cheio de sentimento. Almejo com meu coração que muitas pessoas, sensibilizadas por essas verdades, transformem suas escolhas deixando de ser parte dessa cadeia de tanto sofrimento dos animais, vítimas da exploração pela espécie que mais deveria honrá-los.

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